Douglas C. Engelbart

A revolução inacabada

Douglas Engelbart é um dos grandes visionários de nosso tempo. O valor de sua obra é inegável. Em 1960 ele já propunha o uso dos computadores para conferências e comunicações online. Em 1950, logo após a Segunda Guerra, Engelbart começou a trabalhar na NACA Ames Lab, precursora da NASA, onde desenvolveu ideias para um mundo que percebia como cada vez mais complexo. Ele já imaginava “pessoas diante de displays, navegando em um espaço informacional onde se poderia formular e organizar ideias com grande rapidez e flexibilidade”. Sua ideia de facilitar o acesso a um mundo complexo sempre incluiu problemas profissionais, empresariais, mas também sociais, que na verdade eram questões sobre como compreender um mundo cada vez mais populoso e diverso.

Em 1963 Engelbart fundou seu próprio laboratório de pesquisa. Ele o chamou de Augmentation Research Center (ARC). Em seu laboratório ele desenvolveu o sistema NLS (oNLineSystem), que facilitou a criação de bibliotecas digitais e o armazenamento e acesso a documentos utilizando o conceito desenvolvido pelo seu colega Ted Nelson (convidado do FILE Symposium 2005). O NLS utilizava um aparato para facilitar a interação desenvolvido por ele chamado mouse (que só foi comercialmente adotado com os computadores Apple).

O NLS também criou novas interfaces gráficas, processadores de texto e outras possibilidades inovadoras na época, como as que permitiam que os usuários enviassem correios eletrônicos uns aos outros, e a teleconferência. O fato de que todas essas tecnologias sejam conhecidas e consideradas elementares por praticamente todo usuário de computador hoje em dia só reforça a importância dessas descobertas nos anos 60.

A primeira grande apresentação do projeto no Fall Joint Computer Conference em San Francisco em 1968 já foi em si histórica: ao invés de subir ao palco e falar para o público do auditório, ele controlou a apresentação através de um console desenhado por ele e gerada por um computador

NLS em Menlo Park, a 50 quilômetros de distância, apresentando demos ao vivo, transmitindo depoimentos em teleconferência em audio e vídeo de pesquisadores em seu laboratório e alternando com sua apresentação presencial. Algumas pessoas na época achavam que se tratava de um truque, e essa apresentação é conhecida hoje como "The Mother of all Demos" (a mãe de todas as demos). O projeto NLS foi desenvolvido com financiamento da ARPA, e quando a ARPANET foi criada (a rede que deu origem à World Wide Web), o laboratório ARC de Engelbart foi seu segundo nodo.

No entanto, não se pode confundir o trabalho de Engelbart com simples desenvolvimentos de ferramentas tecnológicas. A pesquisa de Engelbart esteve sempre envolvida mais diretamente com a expansão da inteligência humana por meio da tecnologia, o que hoje se poderia chamar de inteligência aumentada ou expandida. Como ele mesmo menciona em seu texto Trabalhando Juntos, a preocupação de sua pesquisa se relaciona com “aumento”, e não automação. Suas descobertas eram consequência de uma pesquisa que buscava criar um ambiente de trabalho colaborativo, onde toda a estrutura de hardware e software deveria ser desenhada de modo a mediar o desenvolvimento de uma inteligência e criação coletivas. Mesmo com todo o reconhecimento mundial de sua obra, ele entende que ainda há muito a avançar, já que muitos dos sistemas que foram popularizados com o PC, como o WYSIWYG (what you see is what you get), tornou, por um lado, os computadores pessoais amplamente utilizáveis pelo público geral, mas seguem a lógica do documento impresso em papel e não exploram a proposta de hipertexto que visava uma estrutura não-linear de acesso e uso, já proposta por ele e seus colegas no sistema NLS.

Hoje em dia, a revolução iniciada por Engelbart ainda segue adiante, e a primeira edição do FILE PRIX LUX tem a honra de homenageá-lo pelo conjunto de sua obra.




D. Engelbart e o mouse.

Arquivos NIC (1971) - O mainframe principal do ARC foi a segunda dessas unidades conectada à ARPANET, que foi a precursora da Internet. O laboratório de Engelbart fora designado pela ARPA para dirigir o Centro de Informações em Rede (NIC), que desde então se tornou o InterNIC. Esta foto mostra os arquivos do NIC com sua biblioteca de publicações e fitas de backup (magnéticas de 7 ou 9 faixas).
Primeira vídeo-teleconferência na FJCC em 1968 - Um screenshot de hipermídia com teleconferência com vídeo simultâneo mostra Bill Paxton, do ARC, transmitido do laboratório do SRI em Menlo Park.
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